Então, as pessoas falam da divisão pela divisão aqui, mas
não visam aspectos importantes como : Será que ''desenvolvimento'' seria construir
grandes metrópoles em áreas que são atualmente consideradas rurais? Será que
esse ''desenvolvimento'' proposto a um caboclo amazonida, a uma tribo indígena
ou a um ribeirinho não seria mais um etnocídio ao impor a cultura das grandes
cidades?
Aí o tiozinho que quer dividir o Pará, chega com meu primo que mora lá na beira do Xingu e diz que tudo vai mudar, se ele votar para separar. Que lá na cidadezinha que ele mora, que não tem NADA, vai ter TUDO.
Aí o tiozinho que quer dividir o Pará, chega com meu primo que mora lá na beira do Xingu e diz que tudo vai mudar, se ele votar para separar. Que lá na cidadezinha que ele mora, que não tem NADA, vai ter TUDO.
Vai ter um grande shopping center,
onde ele vai poder comprar as roupas que ele usará, prontas! Dona Maria, sua
mãe, que costurava para ele e para o resto da cidade não terá mais para quem
costurar... Ah, mas terá um hospital também! Assim, as mulheres que têm neném não
vão mais precisar do serviço tradicional e hereditário das parteiras. Vovó
Bernadete era parteira. Tia Rosa,sua filha, é parteira. A filha dela, Cleonice,
está aprendendo desde pequena. Agora, depois que o hospital chegar... Ah, mas
terá uma farmácia! Janilton, que era curandeiro não vai precisar mais entrar no
mato para colher as ervas medicinais que curava as pessoas da cidade. As
farmácias terão remédios prontos para serem comprados. E em caixas...Pescar e
caçar ? Ah, vira essa boca pra lá! Isso virará coisa do passado! Para quê? Terá
um enorme super mercado. Recheado de coisas saborosas e industrializadas que
você pode comprar! Huummmm....delícia!
Então meu primo foi
definitivamente convencido que com um Shopping Center, com um hospital, com uma
farmácia e com um super mercado, sua vida irá mudar! Afinal, a vida dele começará a ser bem parecida com a
minha vida que moro na capital, Belém. Só esqueceram de lembrar alguns detalhes
para o meu querido primo:
Que Dona Maria, sua mãe, que
costura, como vai ficar sem costurar...não vai ter dinheiro. Não tendo
dinheiro, não vai poder comprar no shopping as roupas prontas pro meu primo.
Que a Tia Rosa e sua filha
aspirante a parteira, não vão mais fazer partos, por causa do hospital. Logo,
não poderão pagar o plano de saúde que precisa ser pago para utilizar os
serviços deste hospital. As unidades públicas de saúde? O deputado disse que só
vai sair no mandato que estar por vir...
Janilton, o curandeiro, não vai
precisar ajudar as pessoas com seus conhecimentos medico - botânico. A farmácia vai está lá. Mas quem vai ter
dinheiro para comprar remédios tão caros? Sem contar com os efeitos colaterais possíveis
de ocorrer, haja vista que uma população nunca usara medicamentos tão
industrializados.
O mapará, o tambaqui e o
pirarucu...vão virar sardinha em lata vendidos no Supermercado. Vai ser coisa
de gente rica comer um mapará com farinha e açaí e dormir depois do almoço. O meu
primo, que sempre pescou com o pai, vai passar fome porque não vai ter dinheiro
para comprar no supermercado, que por sinal está cheio de comida. Que
contradição...
E não é só isso não...com esse
suposto desenvolvimento que eles estão propondo, as rodas de carimbó ( dança
típica da região norte) serão substituídas por sertanejo universitário. O nosso
tecnobrega, por pagode. Não estou discriminando o sertanejo ou o pagode, só
estou enfatizando a perda de regionalismo que poderá ocorrer. A perda de
cultura musical.
E agora? Sem dinheiro? Sem poder comprar? A cidade será
invadida por novas pessoas. Essas novas pessoas irão construir novas casas. E
essas novas casas não serão palafitas, serão de alvenaria. O mato que tinha no
lugar onde serão construídas essas casas de alvenaria, será destruído. Serão
construídas umas 10 mil casas de alvenaria. E o mato? Não vai ter mais mato.
Não vai ter mais palafita. Porque quem mora nas palafitas será desabrigado. Por
quê? Porque de acordo com o governo, quem mora em palafita, costura a sua
própria roupa, faz parto com parteira, usa ervas medicinais, pesca e caça...é
pobre, marginalizado e não tem o direito de viver desta maneira. Então...o meu
primo vai descobrir na prática, que talvez viver em uma cidade grande, um
grande centro urbano, não é tão bom assim.
Sinceramente? Estou de saco cheio desse desenvolvimento inútil
que estes políticos sujos propõem. Não acredito que construir nas zonas rurais
grandes impérios urbanos desiguais é saída para o estado do Pará, nem para
lugar nenhum! Irá trucidar nossa cultura, irá dilacera nosso povo e exterminar com
o meio ambiente da Amazônia. Por isso,
digo que não quero virar canteiro de obra para empreiteiro, não quero barragem
nenhuma nos nossos rios, não quero ver a nossa biodiversidade explodir, não
quero ver meus parentes e amigos serem enganados, não quero, não quero! Moro na
cidade, mas isso não me impede que eu vá na casa do vovô e relembre os velhos
tempos indígenas dos Ajujure e me pinte para guerra! Eu vou lutar contra o que eu achar que destrói
o meu povo!
Abraços,
Fernanda Paz
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